Qui, 09 de Setembro de 2010 04:07 - Escrito por Rafa
Surgem Leafar, Aislinn, Sailorcheer e Marion, que mal sabem que viverão uma aventura épica. Os GMs Namu e Wyla convocam os quatro para uma missão urgente e especial: impedir o progresso de Jô Mungandr, Jestr e Hrymm na tentativa de reviver a Ruína de Rune-Midgard!
Hora Zero
Texto: Rafael de Agostini Ferreira
Arte: Daniel "Niori" Uires
Capítulo II – A Missão
18h30 - Campos de Prontera, Quadrante 5
O final de tarde estava extremamente agradável nos campos de Prontera. Os últimos raios do sol, já alaranjados, entravam uma clareira cheia de gente. No centro dela, um pouco de água formava um lago em miniatura, cuja profundidade mal chegava na canela de uma pessoa. Nela, um cavaleiro estava ajoelhado, de cabeça baixa, segurando sob um dos braços um Chifre Majestoso. Em pé, na sua frente, um Lorde terminava algum tipo de discurso. Os presentes ouviam em silêncio as palavras.
- ...e cumpriu devidamente seu objetivo e sua função. Por seus feitos pela Ordem do Dragão, eu o promovo. Ajoelhou-se como Filhote do Dragão, mas vai se levantar como Cavaleiro do Dragão.
Uma Sacerdotisa de cabelo moreno e longo rabo-de-cavalo abençoou o Cavaleiro e o Lorde. Os demais bateram palmas, enquanto o emocionado e recém-promovido Cavaleiro do Dragão foi buscar seu Peco Peco nas margens do “lago” – o nome pelo qual chamavam aquele local.
- Por hoje estão dispensados. Avante, Dragões!
Um “Avante” foi ouvido em resposta. O Lorde tirou alguns fios de cabelo louro que insistiam em tentar cair na frente seus olhos e foi também para a margem. Não pôde deixar de notar a Caçadora sentada, com um Yoyo no colo, observando-o.
- Senhorita Aislinn... – disse ele, fazendo uma mesura com a cabeça.
- Leafar! Não precisa ser tão formal comigo!
Ele ficou sem jeito e sorriu. Na verdade, ainda estava tentando se acostumar com aquilo. Há dois anos tinha sido clonado e colocado em um tipo de animação suspensa. Seu clone é quem tinha fundado a Ordem do Dragão em seu lugar. Não apenas isso, ele tinha se casado com a loura ali na sua frente. Depois que ele enlouqueceu – devido a uma anomalia em sua formação – foi ela quem deu o golpe fatal que tirou sua vida e terminou-a abruptamente. E até alguns meses atrás, tudo que o Leafar original queria, depois de ter despertado e descoberto a verdade, era seguir a carreira de sacerdote, ajudando na igreja. Mas o surgimento dos membros da Ruína de Rune-Midgard fizeram Leafar abandonar o sacerdócio. Em uma situação que pertence a outra história, ele não apenas tinha perdido os poderes de sacerdote, como tinha também se tornado um Cavaleiro ainda mais poderoso que seu clone tinha sido. E olhar para a mulher que, de certa forma, se casou com ele e depois o matou, o deixava sem saber o que fazer direito.
- Desculpe. Ei, diga a verdade. – falou com a voz baixinha – Eu estou me saindo bem?
- Como assim? – ela se levantou e ficou perto dele, para ouvir melhor, ainda segurando o animalzinho de estimação.
- Essa é apenas a segunda cerimônia que conduzo. E vocês viveram anos com cerimônias, você sabe, feitas por... ele.
Ela fez cara de quem não entendeu, mas ele apontou discretamente para a aliança de casado que ela mantinha no dedo. Aislinn soltou um riso rápido e balançou a cabeça negativamente.
- Pare de se preocupar com isso. Não tem como comparar. Mesmo porque, convenhamos: vocês são praticamente a mesma pessoa!
Antes que Leafar pudesse responder, a Sacerdotisa morena se aproximou, segurando um Filhote de Lobo de Deserto.
- Com licença, senhor. Ainda precisa de mim hoje?
- Não. Pode ir descansar.
- Obrigada. Aqui está seu cão. Boa noite, senhor, Aislinn...
Leafar pegou o “cão” – o modo como se referiam a Rush, seu animalzinho. Os dois fizeram uma breve reverência de cabeça, e viram a Sacerdotisa abrir um portal. Os últimos membros da guilda que estavam ali também entraram nele, deixando Leafar e Aislinn sozinhos na clareira.
A Caçadora soltou o Yoyo, que correu para brincar com alguns Porings. Leafar sacou a espada das costas, desprendendo-a de algum ponto de sua armadura, por debaixo da capa vermelha. Colocou-a no chão e sentou-se, de costas para Aislinn. O cão xeretou a lâmina, extremamente larga e de tonalidade roxa, que tinha esmagado a grama que ele queria cheirar.

- Esse lugar é especial, não é? – disse Leafar, fazendo carinho na cabeça de Rush.
- Muito. Aconteceu muita coisa importante aqui. A fundação da guilda, a morte de Julian, nosso noiv... digo, meu noivado, meu casamento...
- Pelo visto – uma voz feminina chamou a atenção dos dois – mais uma coisa ficará marcada aqui neste lugar.
Em uma fração de segundo, Leafar já estava segurando firme a espada com as duas mãos, enquanto Aislinn tinha uma flecha no arco, apontando para o local de onde veio a voz. Rush mal teve tempo de se virar, e o Yoyo, agarrado na perna da Caçadora, viu uma Suma Sacerdotisa surgir das sombras de uma árvore.
- Que bom que estão com os reflexos em dia. Mas não precisam receber assim a uma amiga!
- Marion! – Leafar abaixou a espada e foi até ela – Que surpresa agradável!
Ele se aproximou e a beijou no rosto, seguido de um abraço. Aislinn também veio para perto dela, e se limitou a sorrir, enquanto devolvia a flecha à aljava. Marion tinha a expressão um pouco preocupada. Era possível notar, em seu olhar, algum tipo de sofrimento. Ela segurava uma bíblia com as duas mãos, apoiando-a na roupa avermelhada típica de sua transclasse.
- Espero não ter interrompido nada – disse ela, com sinceridade na voz.
- Não, tínhamos acabado uma cerimônia agora há pouco. Promovi um membro a Cavaleiro do Dragão. E Ais me contava sobre este local. Mas diga-me, o que a trás aqui?
- Não temos tempo a perder, por isso peço perdão de antemão pela minha objetividade. Lembram-se da Ruína de Rune-Midgard, não?
- Como eu poderia esquecer?
E era realmente impossível não se lembrar. Quem viveu, nunca mais vai perder a memória dos milhares de monstros que tomaram conta das principais cidades, devastando tudo que encontravam. Aislinn apertou o arco com força, lembrando-se de quantidade de gente que morreu para proteger a continuidade da vida.
- Bem, o que vou lhes dizer deve ficar apenas entre nós.
Com um leve movimento de mão da Suma Sacerdotisa, uma esfera azulada surgiu e começou a rodear seu corpo. Se existisse alguém invisível ali, teria sido revelado na mesma hora. Certa de que era seguro continuar, olhou para Leafar e Aislinn.
- O Rei foi até Nifleheim, levando três raríssimas Folhas de Yggdrasil de Prata. Não sei como ele conseguiu isso. Mas ele ressuscitou três membros da Ruína de Rune-Midgard.
Os pêlos dos corpos de ambos ficaram arrepiados. Mas eles não tiveram tempo para ficar chocados. Marion prosseguiu em seu discurso.
- Enquanto conversamos, Jestr, Lady Jô Mungandr e Hrymm estão a solta, provavelmente buscando modos de trazer o restante dos membros da Ruína de Rune-Midgard de volta.
- Não lembro exatamente quais são eles, mas depois você me diz. E como eles podem conseguir isso? – Leafar deu um passo a frente, olhando sério para a Suma Sacerdotisa.
- A lei da troca equivalente. As folhas que foram usadas para revivê-los tinham a essência divina. Agora, para trazer de volta os outros membros da Ruína, eles devem reunir essências tão poderosas quanto eles próprios. E existe um tipo de criatura que, quando morta, libera essa essência.
- Um... MVP? – agora foi Aislinn que se aproximou mais, tensa.
- Sim, mas eles são poderosos demais para que a essência de apenas um MVP sirva. Creio que eles vão precisar de muitas essências para cada um deles.
- Tenho uma pergunta.
- Pode dizer, Leafar.
- Por que apenas os três estavam em Nifleheim? E as almas dos demais?
- Os três foram os únicos que não se mataram no final da batalha. Apenas Hrymm, Jestr e Jô Mungandr ficaram lutando até o final. Os demais, seguindo ordens de Surtr, se mataram, fazendo com que sua essência o fortalecesse.
- E o que tem isso a ver?
- O inferno dos suicidas é diferente dos que morrem em combate, Leafar. Mesmo o doutor Eggther deve estar vagando no mesmo lugar que eles. Então, se seus corpos forem revividos, as almas voltam.
- Não sou conhecedor desse tipo de coisa, Marion, mas se você diz, eu acredito em você.
Ela assentiu com a cabeça, agradecendo a confiança. A seguir, olhou para Aislinn, que também assentiu. Soltando um breve suspiro, um pouco mais calma ao ver que teria a colaboração da dupla, segurou uma gema azul com as mãos.
- Vamos para Prontera. Alguém nos aguarda. – disse, e já se preparava para jogar a gema e abrir um portal, mas Leafar a interrompeu.
- Espere. Vou pedir ajuda para a guilda. Tenho certeza de que eles...
- Leafar, temos que ser rápidos. Você sabe como um grupo enorme é lento e chama a atenção. Se não surpreendermos o trio, não teremos muita chance. E temos que manter isso em sigilo. Imagine o caos nas cidades ao imaginar a volta deles!
- Está bem, então v...
Leafar olhou para o lado e notou uma mercenária. Ela também foi encarada de maneira surpresa por Aislinn e Marion. Sem jeito, coçou a cabeça, desarrumando a Asa de Anjo do cabelo ruivo.
- Hun... eu me atrasei um pouco. Já começou a cerimônia, Leafar?
- Sailor! Está muito ocupada?
- Não, vim assistir a promoção do Gewitter. Mas acho que perdi, né?
- Tudo bem. Venha conosco. Te explicamos no caminho o que está acontecendo.
- Tá bom, tá bom! Parece ser algo grave, hein?
- E é, acredite.
Rush e o Yoyo pularam no colo de Leafar e Aislinn, respectivamente. Marion segurou firme a gema azul e arremessou-a no chão. Uma coluna de luz surgiu. Sem fazer mais perguntas, Leafar, Aislinn e Sailorcheer entraram, seguidos pela Suma Sacerdotisa. E a clareira, mais uma vez, encontrou a paz que lhe era característica, tendo servido de ponto de partida para uma missão que seria lembrada depois por muito tempo.
*****
Prontera
18h45
Os quatro andaram rapidamente do ponto do portal de Marion para a estalagem. Passaram por algumas dezenas de lojas de mercadores, até encontrar a entrada da casa, famosa por suas arenas que reproduziam fielmente as cidades, onde bravos combatentes mediam seu poder.
Foram até o piso superior e entraram em um quarto. Leafar ficou um pouco corado, pois não era de boa educação um Lorde ficar sozinho em um quarto com três mulheres. Parecia nervoso, mas notou a presença de uma quinta pessoa.
- Boa noite, meus amigos, e sejam bem-vindos.
Leafar, Aislinn e Sailorcheer ficaram sem reação inicial. A roupa inteira branca e a voz poderosa não deixavam dúvidas: um dos avatares dos deuses, um GM, estava ali. E não era um qualquer; era Namu, o líder dos GMs.
- É uma honra reencontrá-lo, Namu. – Leafar prostou-se no joelho, seguido das outras duas. Namu se adiantou, tomou o pelo braço e fez com que levantasse.
- Não sou um deus para ser adorado, e mesmo que fosse, meus amigos não devem se ajoelhar diante de mim. Marion lhes adiantou a missão?
- Três deles foram revividos, não? – Leafar olhou firme para Namu.
- Sim. Preciso da colaboração de vocês.
- Três quem? – Sailor falou baixinho para Aislinn, que fez um sinal de “peraí” para ela.
- Pode contar conosco, Namu – Marion apertou o Rosário – E meus amigos disseram que vão nos ajudar. Somos seu grupo de confiança.
- Ótimo. Venham comigo.
Antes que pudessem responder, os quatro se viram teleportados pelo GM. Surgiram em um lugar com pouca luz. O chão era todo irregular e o céu não tinha cor alguma. O macaquinho, Ayo, se abraçou no colo de Aislinn, enquanto Rush saiu cheirando as pedras.
- Eu... conheço este lugar – disse a Caçadora – Aqui é a Ilha Tetra, não?
Namu confirmou com a cabeça. Na Ilha Tetra, há alguns meses, os planos do Doutor Eggther – o homem que inicialmente medira o poder dos combatentes de Rune-Midgard – foram descobertos, junto com um diário que revelou a vinda dos Oito de Surtr. Ali, uma batalha desumana foi realizada, quando dezenas dos monstros mais poderosos de suas categorias, os chamados MVPs, se reuniram para destruir tudo que encontrassem.
- O que estamos fazendo aqui, Namu? – a Suma Sacerdotisa sentia-se mal por estar naquele lugar maldito, e apesar de sua missão, queria ir embora o quanto antes.
- O trio já esteve aqui, antes de vocês ou de nós mesmo. Jestr, de algum modo, sempre engana seus perseguidores.
- Olha, desculpa eu interromper... – Sailor deu um passo adiante, levantando a mão – mas será que dá pra me explicar quem são esses três?
O GM sorriu e concordou com ela.
- Claro. Nada mais justo e natural, já que terão que enfrentá-los. Ouça então com atenção.
A mercenária sentou-se na frente do GM, segurando a cabeça com as mãos. Leafar, Aislinn e Marion se entreolharam e, dando de ombros, sentaram-se também. Namu, em outra situação, teria sorrido, pois gostava de contar histórias. Mas a gravidade da situação não o permitia sentir prazer naquilo. Com um suspiro, continuou narrando.
- Surtr é o líder dos Gigantes de Fogo, inimigos do todo-poderoso Odin e seu panteão. Em sua mais recente investida, ele usou um estratagema ardiloso: convocou um exército composto por oito dos maiores e mais poderosos heróis que já pisaram em Rune-Midgard. Foram eles que lideraram os ataques na última semana da guerra, e que foram derrotados pela união dos seus poderes.
- Vai, Planeta! – Sailor e Marion falaram juntas. Namu balançou a cabeça negativamente, sem evitar um sorriso. Ao mesmo tempo, uma brisa gelada passou pelos três. Aislinn apertou o Yoyo. Instintivamente, buscou a mão de Leafar, mas, ao tocá-lo, notou como ele ficou surpreso e sem jeito. Ainda não tinha se acostumado com o fato de que aquele homem não era seu marido. Pediu desculpa com o olhar e a boca entreaberta, sem jeito, e voltou a ouvir a história.
- Como Marion deve lhes ter dito, três destes oito não se mataram, e realmente tombaram vítimas de batalhas diretas. O primeiro é Jestr. Acredito que Sailorcheer deva conhecê-lo.
Sailor concordou com a cabeça, ainda olhando interessada para a figura de branco na sua frente. Ele continuou falando, após agradecer com o olhar.
- Foi o gatuno mais famoso dos últimos anos, e era conhecido como o Mestre dos Ladrões. Nunca foi capturado, e provavelmente se uniu a Surtr naquela ocasião por alguma promessa de poder. Hrymm tem uma história admirável e, ao mesmo tempo, lamentável. Aos 16 anos já tinha sido nomeado Mestre-Ferreiro real. Nem tinha atingido a maioridade quando mostrou-se tão competente quanto o mais habilidoso mestre anão, e começou a forjar itens divinos. Era o responsável pelo armorial do Rei Tristan III. Obcecado pelo poder, forjou para si próprio os cintos Megingjard e as botas Sleipnir. Não satisfeito, conquistou o Martelo Mjolnir, e nomeou a si mesmo como a reencarnação de Thor, o Deus do Trovão.
Leafar franziu o cenho. Lembrava-se de ter ouvido algo sobre isso. A história deles não era assim tão distante. Era verdade que alguns membros da Ruína tinham sido trazidos de volta da morte, mas outros eram heróis de seu tempo.
- A última, Lady Jô Mungandr, foi a pior perda do lado dos heróis na luta contra a Ruína de Rune-Midgard. Ela cresceu ouvindo as histórias sobre Naglfar, o primeiro Paladino que serviu ao Rei Tristan I, em Glast Heim. Elevou seu poder ao máximo, mas ficou cara a cara com o próprio Naglfar, que estava do lado de Surtr. Uma coisa não se pode negar: a fé dela era inabalável. Tanto que, sem questionar, se viu seu ícone lutando ao lado de Surtr, sem pressões ou dúvidas, foi para o lado dele.
- Com exceção de Jestr então... eles... eles eram heróis? Por que alguém se volta assim para o lado do mal?
A pergunta de Sailor deixou o grupo sem resposta. Leafar se levantou, e deu as mãos para que as mulheres se levantassem também. Por fim, o Lorde notou que o cachorro voltara, inquieto.
- Parece que Rush encontrou algo.
Os cinco foram até o oeste da ilha. Rush começou a latir para algo no chão, enquanto notaram outra figura de branco. As pernas surgindo ao final da mini-saia, porém, não deixavam dúvidas da presença feminina. Leafar não deixou de sorrir ao reconhecer a GM, dona dos dois rabos-de-cavalo azuis, com o cabelo cuidadosamente penteado por trás das orelhas pontudas.
- Wyla!
- Leafar! Então é você um dos convocados! – disse ela, dando um sincero abraço nele.
- Faz tempo, hein? - o louro sorriu, olhando-a de cima a baixo. A história de Wyla com Leafar era bem antiga, e ela o conhecia desde antes de se tornar uma Guardiã.

A seguir, a elfa cumprimentou os demais. Voltou-se então para a direção do motivo dos latidos de Rush: quatro covas abertas no chão.
Aislinn sentiu-se incomodada com aquilo. Era a segunda mulher que ele abraçava calorosamente em menos de uma hora, e aquilo mexeu com ela. Ela sabia que Wyla também tinha interferido na vida do clone, e que o carinho entre eles era enorme, mas ainda não era fácil ver “seu marido”, solteiro, sendo carinhoso com outras garotas.
Marion se aproximou para ver o que tinha, e rapidamente se benzeu, sentindo-se nauseada. Sailor amparou-a, enquanto Leafar foi ver o que era. Notou corpos em estado putrefato ali dentro. Olhou para Namu, que sequer esperou a pergunta.
- Mestre Hatii II, Mestre Garm, Fjalar e Naglfar – disse ele.
- Acho que perdi algo. – Leafar piscou forte e balançou a cabeça – Não eram OITO? Esses quatro e os três que saíram de Nifleheim... isso dá sete na minha terra.
- A oitava – disse Wyla – é a Mestra Fenrir. É o único corpo e alma que não sabemos o que houve. Na verdade, desde os tempos primordiais, ninguém sabe explicar o que ela é.
- E existe alguma chance de ela ter participação nisso, Wyla?
- Não está descartada essa hipótese, Leafar, apesar dela ser pouco provável. Creio que já saberíamos da volta de Fenrir. Os outros, por mais duro que pareça, sempre são descartáveis. Ela é a única que tem lutado ao lado de Surtr em todas as Eras. Não é o tipo de presença que se passa em branco, mesmo sutil.
O Lorde concordou com um movimento de cabeça. Ficou olhando para os corpos sem vida. Era assustador pensar que aquelas pessoas tinham tomado, sozinhas, todos os castelos dos feudos, durante os ataques. Ajoelhou-se ao lado do corpo de Naglfar e ficou observando o Paladino. Aquele homem era mais antigo que muitas das lendas que Leafar conhecia. Era fantástico poder contemplá-lo, assim como era proporcionalmente perturbador imaginar que alguém tão puro e honrado tinha se unido ao inimigo dos seres humanos.
- Essas pessoas não devem reviver, amigos. Se três já são um problema, sete então seriam capazes de trazer de volta aquelas três semanas de horror que vocês viveram. – O GM soltou um breve suspiro, também contemplando os corpos.
- Tenho uma dúvida, Namu. – Marion se aproximou da cova com o corpo de Fjalar, e ficou olhando para ele, enquanto falava – Será que eles têm mais daquelas folhas de Yggdrasil que o Rei usou?
- Aquelas folhas são extremamente raras. Não sei como o Rei tinha TRÊS delas. As chances de existir mais UMA são irrisórias. Acredito que eles seguirão o caminho normal.
- Que seria o que Marion nos falou? – Aislinn soltou Ayo e também ficou mais próxima.
- Sim. Recolhendo a essência fresca do máximo de MVPs que eles puderem, até o amanhecer. Com a força delas, é bem provável que eles consigam trazer estes quatro de volta das garras da morte também.
- E eles são poderosos o suficiente para vencer qualquer MVP, sozinhos. – completou Wyla – E é essa nossa chance; eles estão separados enquanto fazem isso, pois precisam de muitas essências.
Os quatro ficaram em silêncio, olhando os GMs. A brisa se limitou a mexer a capa de Leafar. Nem os animais disseram nada. Namu olhou para o chão e, a seguir, olhou para os quatro.
- Agora – disse ele – vocês vão me perguntar por que não vamos nós mesmos atrás deles, não é?
- Na verdade, eu ia perguntar isso agora mesmo, moço. – Sailor sorriu – Vocês são muito mais fortes que nós. Por que a gente é que tem que ir?
- Vocês preferem qual possibilidade: lutar separadamente contra três inimigos poderosíssimos, um por vez, com a chance de vencê-los, ou lutar contra os três juntos, ou talvez sete inimigos poderosíssimos ao mesmo tempo?
- Não entendi...
- Nós vamos ficar aqui e guardar estes corpos. Qualquer pessoa que não seja um de vocês e que entre nesta ilha, será atacado. Se vocês falharem, nós seremos a última resistência contra o poder combinado dos três. Sua missão é atacar cada um deles separadamente e... derrotá-los. Se eles planejam nos enganar e sair daqui e tiverem algum plano reserva que desconhecemos... acho que vocês entendem. Não podemos correr esse risco. Melhor lidar com três loucos do que com sete.
Leafar tocou a empunhadura de sua espada com o luvão metálico. Aislinn passou a mão na testa, enquanto olhava para baixo. Marion juntou as mãos abaixo do pescoço, apertando-as. Sailor colocou as mãos na cintura e olhou para o céu. Ao seu modo, cada um tentou disfarçar como pôde a tensão. Namu se aproximou e colocou a mão no ombro de Marion, olhando-a nos olhos.

- Eu entendo que estejam com dúvidas e incertos, mas não podemos nos dar ao luxo de perder tempo. Neste exato momento, o trio já está coletando as essências dos MVPs. A luz do sol vai tirar o status de frescor delas, e eles terão que reiniciar uma caçada durante o dia, até que a noite faça a mesma coisa. Mas aí já será tarde demais. Sem ter que se esconder, em plena luz do dia, eles vão começar a matar pessoas.
- Como podemos encontrá-los? – Leafar soltou a empunhadura junto com um suspiro, olhando determinado para Namu. Wyla tocou sem ombro e lhe ofereceu um Espelho Convexo.
- Isto vai te mostrar a presença de um MVP em qualquer mapa que estejam e que exista um. Se vocês forem rápidos o suficiente, podem encontrar um dos três atacando o MVP e impedir.
- Nós temos que salvar o MVP do trio? – Aislinn quase gritou, indignada com a constatação.
- Eu tenho certeza de que pensarão em algo. Confiamos em vocês. – Wyla olhou para ela.
Leafar pegou o espelho e guardou-o. Olhou a seguir para as três junto a ele. Não via medo nelas. Apenas percebia que elas sentiam o peso da responsabilidade que lhes fora confiada. Natural, assim como nele próprio.
- Estão prontas, moças? – perguntou, encarando-as com um sorriso no canto da boca.
As três responderam o “sim” em uníssono. Voltou-se então para os GMs, enquanto tirava do bolso do cinto um pouco de ração.
- Como faremos? Vamos para algum mapa com MVP e ficar vigiando, para ver se damos a sorte de encontrar um deles? – disse Leafar, dando comida para o cachorro pegar na sua mão.
- Vocês terão a ajuda de um aliado. Oromë está agora mesmo em campanha para encontrar os três. Ele está percorrendo todas as localizações com MVPs, e ao menor sinal de um deles, dará o sinal para vocês.
- Certo, Namu. Bem, então nós vamos nos arrumar. Pode nos mandar para alguma Kafra?
- Claro. Separem seus melhores equipamentos e sejam fortes. Boa sorte, amigos.
- Confiamos em vocês. – Wyla sorriu, prostrando-se ao lado de Namu.
- A confiança é mútua. – Leafar sorriu e parou ao lado do grupo.
Com um movimento de mão de Namu, os quatro desapareceram. O GM abaixou a cabeça e olhou para as covas abertas. Sentiu a mão delicada de Wyla em seu ombro. Ele pousou a própria em cima da dela.
- Acalme-se. Vai dar tudo certo.
- Assim espero, Wyla. Assim espero...
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