Qui, 09 de Setembro de 2010 04:11 - Escrito por Rafa
O épico capítulo com o episódio que mudou a vida de Leafar para sempre - a morte de Aislinn. E outra lenda surge para enfrentar o grupo: Jestr, rei dos ladrões.
Hora Zero
Capítulo V – Te amo imensamente
22h – Prontera
- Você não pode entrar aqui.
O aviso do guarda não surtiu efeito algum na Rainha dos Mortos. Um fino sorriso surgiu em seus lábios, enquanto, um pouco mais atrás, duas aparições vinham da entrada do castelo de Prontera.
- E o que fará em relação a eles, mortal?
Desesperado, o guarda correu na direção dos monstros, para proteger o lugar. A mulher passou então pela porta dupla de madeira. Andou pelo tapete vermelho que cobria o chão de pedras lisas e polidas do castelo. Seguindo sua intuição, subiu um lance de escada. Um homem que lia algo, assustou-se. Deixou cair o Pince-Nez e afastou um pouco a cadeira.
-P-pois não? – disse, assustado.
- É você o tal que estava com Tristan, não era?
O homem olhou ao redor, procurando algum guarda. Mas ali, na calma da biblioteca, não encontraria nenhum. Levantou-se e foi andando de costas, até dar com elas na parede.
- Responda. Era você que estava com Tristan ultimamente, não?
- Eu sou convidado do rei, como tantos outros aqui, senhorita.
- Rainha. Dos Mortos – os lábios de cor escura tornaram-se um sorriso malicioso, junto com um olhar cheio de maldade, que arrepiou o cavanhaque do homem esguio.
- V-v-você veio me buscar? Minha vida terminou?
- Tsc tsc tsc... pare de ler histórias infantis. Eu não perderia meu tempo matando alguém pessoalmente. Qual seu nome? Diga!
- R. Ruts, de Lighthalzen.
- Erre? Erre do que?
- Era o nome de meu pai... não gosto de usá-lo, se não se importa.
- Entendo... Ruts. Você foi visto em Umbala com o Rei, no final da tarde de hoje. O que faziam?
- Eu não...
- PARE DE TENTAR ESCONDER! – a sala ficou imediatamente gelada, como se a própria sombra da morte pairasse ali – CONTE LOGO! TUDO!
O barão engoliu seco. Tremendo, voltou a se sentar. Suspirou, e começou sua narração.
*****
22h15 – Labirinto da Floresta
Leafar, Aislinn e Sailor observavam as duas mulheres caídas. Marion ainda movia o peito, respirando. Parecia desmaiada, mas viva. Jô, porém, não dava sinal algum. Sua aura estava apagada. Seu corpo, imóvel.
- Ele... matou ela! – Aislinn falou descrente, segurando firme o Gakkung.
- Traidores merecem a morte. – Jestr passou a língua no sangue em sua adaga, enquanto encarava o trio. Antes que alguém pudesse dizer algo, apontou a arma para eles, de maneira displicente.
- Vamos ser honestos. Vocês sabem o que vai acontecer. Nós VAMOS reviver os outros. Exércitos não foram capazes de nos parar. Não são três ou quatro que vão.
- Foi a mesma coisa que Jô disse... – Sailor interrompeu o Desordeiro.
- ... sim, mas quem matou ela fui eu, não vocês! Eu estava vendo. Ela ia desintegrar vocês. Se não puderam derrotar nem ela, que dirá de mim!
Leafar tomou a frente do grupo. Segurou firme a Katzbalger. Aquele homem era famoso. Jestr jamais tinha sido capturado. Era uma lenda, novamente viva. Notando o olhar de Leafar, que misturava curiosidade, surpresa e tensão, Jestr sorriu.
- É... ainda tenho tempo antes dos próximos MVPs voltarem. Vou matar vocês, começando pela Mercenária!
O Desordeiro sumiu no ar. Os três ficaram juntos, em postura defensiva. Sailor notou pegadas no chão, vindo em sua direção. Mal teve tempo de empurrar Leafar e Aislinn, quando Jestr surgiu na sua frente. Habilmente, esquivou-se da estocada, mas não deixou de tomar um chute nas costas, que levou-a ao chão. Sacou as katares e preparava-se para enfrentar o homem, quando foi envolvida por uma aura rosa. Aislinn murmurou um “oh não”, quando, segundos depois, Sailor sumiu.
- Mas hein? – Jestr parou e coçou a cabeça.
- “Saudades de você” – disse a Caçadora, olhando a própria aliança no dedo – É uma habilidade que o casal recebe no ato do casamento. Com ela é possível chamar a pessoa amada para o seu lado, onde quer que ela esteja.
- Péssima hora pro Fei ter sentido saudade da Sailor – o Lorde balançou a cabeça e prostou-se ao lado de Aislinn.
- Tudo bem, tudo bem – Jestr guardou a adaga e sacou uma espada – eu mato o tempo com vocês dois mesmo... literalmente!
Com uma gargalhada que beirava a insanidade, ele avançou contra a dupla.
*****
Ilha Tetra – 22h50
A chegada do ar gelado não intimidou Namu e Wyla. Os dois, vigiando os túmulos abertos, notaram a bruma que se aproximava, trazendo ninguém menos que a Rainha dos Mortos.
- Isso está começando a ficar realmente bizarro. – a GM falou baixinho para Namu – O que ELA está fazendo aqui?
- Vamos descobrir.
- Saudações, GMs.
Namu respondeu com um leve aceno de cabeça. De expressão fechada, Wyla ignorou, com os punhos cerrados.
- O que quer, Rainha dos Mortos? – disse o líder dos GMs, encarando-a.
- Estou atrás de respostas. Vocês dois sabem que o Rei não será trazido de volta por meio de exorcismo. Vocês sabem que estes quatro túmulos já estavam abertos quando vocês chegaram. E não tentem dizer que não. Eu conheço tudo sobre a morte de todos.
Namu olhou Wyla brevemente. Voltou a observar a mulher na sua frente. Ela, por sua vez, encarava cada um dos quatro cadáveres. Fitou-os por vários momentos, como se estivesse lendo-os. Seus olhos se moviam com muita velocidade, buscando cada milímetro, cada trecho deles.
- Estamos protegendo eles. Ninguém irá revivê-los. – Namu olhou determinado para a Rainha.
- Não agora. Não com seus heróis vivos. Vocês conhecem as leis deste mundo. Seus heróis têm uma pequena chance de impedir isso. Heróis... ou peões?
- Não fale assim dos escolhidos! – Wyla avançou, com fúria no olhar.
- Ah, “escolhidos”... é esse o nome agora? Fico aqui me perguntando por que é que vocês mesmos não foram enfrentar o trio. Vocês guardam todas as chaves, são senhores de todos os segredos e poderes. Ah... mas como é mesmo aquela regra?
Com passos lentos, valorizando as longas pernas pelo corte do vestido, a Rainha dos Mortos andou em volta de Namu. Abriu a boca devagar, proferindo palavras com calma.
- “Um GM não pode interferir na vida dos mortais. Jamais pode ajudar, proteger ou lutar ao lado de um. Tudo que ele pode fazer é aconselhar, observar e punir os que quebram as leis”.
Namu abaixou a cabeça. Wyla sentiu uma pontada no coração, e olhou boquiaberta para a Rainha dos Mortos. Ela, por sua vez, saboreava o momento.
- De qual lado vão ficar quando seus peões forem derrotados? Qual será a desculpinha esfarrapada dessa vez? “Venham, heróis! Vamos nos unir e salvar Rune-Midgard!”? Vão ficar parados observando?
Os três ficaram em silêncio. A Rainha fixou seu olhar em um dos túmulos e apertou a sobrancelhas. Namu e Wyla, por um momento, pareceram assustados. Os dois se entreolharam. Algo fora dali tinha acontecido.
- Eu fico aqui, pode ir. Eu vigio ela. – disse Wyla.
- Do que estão falando? – a Rainha questionou, inquisitiva.
O GM respirou fundo. Engoliu seco e começou a falar. Não havia motivo para esconder a informação daquela mulher.
- Hrymm quase atacou Geffen. Oromë conseguiu enviá-lo para o deserto de Morroc. Uma guilda local foi junto e está lutando contra ele agora.
- Ah, então hoje o inferno vai lotar? Que delícia... – dessa vez, o comentário dela saiu sem malícia. Estava realmente com o olhar fixo em um dos túmulos.
- Vai, Namu. – Wyla repetiu – Eu fico aqui vigiando ela.

A Rainha olhou a GM nos olhos. Wyla deu um passo para trás, intimidada.
- Garota, se eu quisesse, já teria dado conta de você. Agora mesmo eu teria invocado algumas centenas de criaturas das trevas para distraí-los enquanto eu pudesse roubar estes corpos. Mas se você usar sua mente para pensar um pouquinho, além de apenas separar essas orelhinhas de elfa, saberia que eu não tenho o menor interessa na volta destas pessoas à vida.
- Vamos, Wyla. Temos que ir para o deserto de Morroc.
- Mas Namu! Ela...
O GM interrompeu Wyla.
- ... ela está certa. A Rainha dos Mortos não vai fazer nada com os corpos deles. Se a Ruína conquistar Rune-Midgard, tomar Nifleheim seria questão de tempo. Vamos.
Ao dizer isso, Namu desapareceu. Wyla olhou assustada para a Rainha dos Mortos. Ela, notando que era observada, devolveu o olhar.
- Já escolheu de qual lado vai ficar, GM? Vá lá... vá “observar”.
Sem dizer nada, Wyla também sumiu. A Rainha então voltou sua atenção para o túmulo que estava olhando antes.
- Então foi logo você? Mas... por quê?
*****
Labirinto da Floresta - 23h
O barulho do impacto foi alto. Leafar fazia força para se levantar. Se não fosse a armadura, teria quebrado as costas na árvore na qual tinha sido arremessado por Jestr. Olhou para a Katzbalger caída nos pés do Desordeiro, assim como o Gakkung de Aislinn; ele os tinha desarmado e eles mal tinham visto o que aconteceu.
- Olha, isso realmente está divertido, mas daqui a pouco alguns MVPs começam a voltar. Tenho que matá-los logo – com um suspiro, Jestr embainhou a espada e sacou novamente a adaga – Quem será o primeiro?
- Ais! – Leafar, com determinação, parou entre Jestr e Aislin – Tente acordar Marion. É nossa única chance. Eu seguro ele.
A Caçadora, entretanto, ficou parada. Olhou o falcão, Aren, caído. Seu arco estava longe de ser recuperado. Encarou o Desordeiro nos olhos.
- Você está me subestimando, Jestr. – disse ela, determinada. Conseguiu arrancar uma curta gargalhada do adversário.
- Subestimando uma fraca como você? – falou com o ar divertido – Quem você pensa que engana, Caçadora? Acha que eu não sei o que há por trás dessa carinha bonitinha?
- Do que está falando?
- Eu me lembro de você na batalha da Ruína. – o Desordeiro continuou, com o sorriso maldoso no rosto – Não era você que estava com aquele grupo vendendo autógrafos na cidade, sem realmente pegar em uma arma para lutar? E não pense que não sei que matou seu próprio marido. Já parou pra pensar que pode estar na profissão errada?
- Ais! Vai ajudar a Marion! – o Lorde começava a ficar preocupado, dividido entre socorrer a ruiva e ajudar Aislinn. O fato é que, sem a Suma Sacerdotisa, nenhum deles teria alguma chance ali.
- Conheço muito bem tipinhos como você. Não sei por que se tornou Caçadora. Teria dado uma bela matadora de aluguel. – Jestr mediu-a de cima a baixo, irônico.
- Cale a boca! Eu não sou como você! – disse ela, de punhos cerrados.
- Não mesmo. É fraquinha demais. Vai lá ajudar a Suma. Deixa eu matar o Lorde primeiro, vai?
- Ais! – Leafar gritou, desesperado – Pára de bater boca, saco! Acorda a Marion!
- Falta pouco para eu Transcender, Jestr! E não sou uma Caçadora vulgar! Estou quase no final do meu treinamento!
- Sei... se depender de mim, você não termina ele. – O Desordeiro começou a andar para o lado, tentando sair da frente de Leafar – E o que acha que vai fazer sem seu arco e seu falcão, além de morrer?
Com o olhar sério, Aislinn sacou da bainha do cinto uma adaga. O desenho da lâmina não deixou dúvidas: era uma Adaga da Boa Ventura. Jestr sorriu e apertou sua própria adaga com vontade.
- Aislinn! – insistiu o Lorde – Não faça isso! Eu paro ele! Acorda a Marion! Vai lá!
- Eu posso me esquivar dele, Leafar. Eu sei do que sou capaz. – disse ela, andando calmamente, tomando a frente do Lorde.
- Não seja BURRA! Somos uma equipe! – disse, segurando-a pelo braço.
- Me solta! Eu não sou tão frágil assim! Sei me cuidar, não cheguei tão longe à toa! Eu me esquivo melhor que você! Me deixa, Leafar!
Com um tranco, ela soltou seu braço da mão do Lorde. Jestr nem esperou, e em segundos os dois já estavam se digladiando, com as lâminas das adagas se tocando em alta velocidade, soltando faíscas. Em um misto de dúvida e desespero, Leafar não sabia qual a melhor opção: interferir na luta, socorrer Marion ou ficar assistindo. Jestr, estrategicamente, não saía de perto das armas caídas. Leafar chegou a colocar a mão na empunhadura da Muramasa, mas sem Marion para livrá-lo da maldição inerente à arma, seria presa fácil. Correu então para a Suma Sacerdotisa.
- Marion... acorda, por favor! – com as mãos no rosto dela, Leafar alternava entre socorrê-la e assistir ao duelo entre Aislinn e Jestr.
O rosto dela estava escuro, devido à forte pancada que levou do Desordeiro. Leafar pegou uma Folha de Yggdrasil e esmagou-a. Sua essência começou a voar na direção da ruiva. O barulho das lâminas o fazia ter medo de virar e acompanhar a batalha. Via o poder da árvore da vida começar a agir em Marion. Tenso, voltou o rosto para ver a luta.
Aislinn e Jestr estavam com as adagas cruzadas no alto, e as mãos prensadas em defesas no lado, medindo forças. Separaram-se e recomeçaram a troca de golpes. Ambos eram extremamente rápidos. As esquivas eram realmente muito boas. Mas Jestr mal estava suando. Aislinn, por outro lado, parecia no limite de suas forças.
- Muito bom. – disse o Desordeiro – Mas não é o suficiente para me enfrentar. Você vai morrer.
Leafar não se conteve. Marion mal começava a se levantar, e ele tinha ficado de pé. Sacou a Muramasa da bainha nas costas. Aislinn e Jestr novamente partiram um para cima do outro. Leafar notou o golpe fatal indo na direção da Caçadora. Tudo que desejava era ter algum ataque de longa distância ou magia, mas não possuía. Tinha apenas aquela espada, a adaga na cintura e o anel no dedo... o anel!
- Aislinn!! Eu amo você! – gritou ele, com a aliança firme.
A adaga de Jestr alcançou o pescoço da Caçadora. Sua lâmina começou a rasgar a pele. Entretanto, sangue nenhum saiu dela. Conforme a lâmina ia passando, o ferimento ia se fechando em seguida. Uma aura rosada envolveu a Caçadora, recobrando instantaneamente o dano causado pelo ataque do Desordeiro. O anel de casado do clone de Leafar tinha funcionado com o Lorde também, reconhecendo-o como marido legítimo de Aislinn. Ele tinha conseguido usar a transferência de saúde para ela. Porém, suportar um ataque que ia tirar a vida da amada, realmente exauriu Leafar. Suas pernas tremeram. A Muramasa tocou o solo. Ele sentiu a dor da morte que ela teria encontrado. Caiu no chão, de frente. O Elmo de Orc Herói escorregou de sua cabeça, deslizando até quase alcançar a dupla combatente.
Marion se levantou também e, instintivamente, se curou, recuperando-se do ferimento causado previamente, que a levara a desmaiar. Por reflexo, tentou curar Aislinn, mas lhe faltou poder para isso – também estava em seu limite. Sua boca se abriu desesperada, vendo o Desordeiro preparar um novo ataque. Leafar superava o limite de suas forças, erguendo-se, segurando a Muramasa debilmente, usando sua lâmina apoiada no chão para se manter de pé.
- Ais... lute do... meu lado... Aislinn!!! – gritou com o resto de ar que tinha nos pulmões. Foi ignorado. A Caçadora apertou o cabo da Adaga da Boa Ventura. Confiou em seu poder de defesa e avançou. Jestr também correu. E os dois, no meio da floresta que já se preparava para o outono, se encontraram.
Primeiro veio o barulho seco de metal contra carne. Depois, o suspiro abafado de dor, quase reprimido. Então, a Adaga da Boa Ventura, antes segurada com firmeza, tocou o solo. O sangue umedeceu o top da Caçadora. Escorreu por sua barriga. Com um giro de lâmina, que aumentou o ferimento, rios de sangue começaram a pintar o chão de vermelho. A visão de Aislinn ficou turva. Ninguém poderia dizer o que se passou na cabeça dela. Não era possível para ela enxergar mais nada. Não via mais sequer um palmo diante do nariz. Suas pálpebras começaram a se fechar, escondendo para sempre os belos olhos verdes. Os braços, tensos com o combate, relaxaram, assim como suas pernas. Seu corpo tombou para cima do de Jestr. Ironicamente, seu último abraço – indireto – era em seu algoz. Ele, sentindo o calor do sangue dela em seu corpo, olhou maliciosamente para Leafar e Marion. Deu um beijo no rosto da Caçadora, imóvel.

- Descanse em paz, querida – disse com ironia, soltando seu corpo, que tombou pesado no chão, em cima do próprio sangue.
Lágrimas silenciosas inundaram os olhos de Marion. Leafar estava em silêncio. Podia ouvir o próprio coração batendo, pulsando em cada milímetro do seu corpo. Como último recurso de seu corpo e sua alma em desespero, teve uma breve recomposição de forças.
- Magnificat, Marion.
Tudo que a Suma Sacerdotisa fez foi soluçar ao tentar invocar a magia. Ela a invocou do mesmo jeito, mas não conseguia falar, lutando contra o soluço do choro que queria sair de sua garganta. Leafar, por sua vez, tomou outro gole da poção vermelha que carregava na cintura. Sentiu seu corpo se arrepiar. Brilhou uma vez em dourado, com a Muramasa firme nas duas mãos.
- E aí, lourão? Agora é a hora que você fala que nunca vai me perdoar e que vai me matar? – Jestr provocou, jogando a adaga para o alto, segurando-a pela lâmina, sorrindo.
Leafar não respondeu. Deu um passo para frente, mas sentiu a mão trêmula de Marion em seu ombro. Olhou para ela. O queixo dela tremia, segurando o choro. Com muita força, ela sussurrou, quase que implorando.
- N-não faz a m-mesma coisa que ela... – as lágrimas escorriam aos montes de seu rosto – v-vamos j-juntos... Leafar...
O Lorde parou. Olhou para Lady Jô Mungandr, imóvel. A seguir, fitou Aislinn. Ambas caídas em suas próprias poças de sangue. Apertou os dentes dentro da boca.
- Vamos pegar esse cara, Marion.
Com um suspiro de alívio, Marion curou Leafar. Rapidamente distribuiu suas bênçãos. Leafar andou calmamente na direção do Desordeiro.
- Aí, paquito, não sei se te disseram, mas eu nunca fui captu...
A frase foi interrompida. A Muramasa, rápida, abriu o primeiro corte no peito de Jestr. Ele andou para trás, descrente. Há quanto tempo não era atingido? Tinha se esquecido de como era a dor de um ferimento. Leafar permanecia impassível. Limitou-se a dar um chute em seu próprio elmo caído, tirando-o do caminho. Segurava a espada apontada para a frente.
- Deu sorte, mas não ache que isso vai acontecer de no...
Uma nova seqüência de ataques atropelou o Desordeiro, ao som da Glória da Suma Sacerdotisa. Leafar não errara nenhum ataque. Jestr olhava assustado para os ferimentos.
- I...im...impossível!!! – O Desordeiro olhava indignado para a roupa, que começava a ficar suja com seu próprio sangue – Ninguém neste mundo é capaz de me atingir!
- Minha especialidade é acertar coisas inatingíveis em qualquer situação, ladrão – Leafar falou sem a menor emoção, com o rosto frio – É este o meu treinamento, e esta é a espada que vai te fazer entender isso por meio da dor.
Babando sangue, Jestr partiu para cima do Lorde. Sentiu-se mais lento, vítima de uma magia de Marion. Em seguida, sua garganta ficou apertada, e nenhum som mais saía dela. Leafar continuou atacando. Cada golpe era um acerto; preciso, perfeito. Ocasionalmente, um fantasma avermelhado de uma criatura esquelética aparecia e agarrava seus braços, diminuindo sua força; esta era a maldição da Muramasa – o espírito do dono anterior da espada tentava possuir o portador. Mas bastava uma benção de Marion para que Leafar voltasse a brilhar em dourado, atacando em sua força máxima.
O corpo de Jestr parecia uma colcha de retalhos, tantos eram os cortes. Ao contrário de Leafar, ele não tinha alguém que lhe curasse e mantivesse forte. Sua voz finalmente voltara, mas ele já não tinha mais forças. Assustado, via o Lorde crescer em sua frente, a cada ataque. Tentou se defender de um ataque rápido e foi atingido por uma dor incrível, em algum lugar do corpo que não reconheceu de imediato, de tão forte que era. Um novo golpe o fez erguer a adaga para se proteger, mas lhe faltava algo: sua mão direita. Notou com desespero ela caída do lado, arrancada em um corte reto e perfeito da Muramasa. Prostrado de joelhos, sentiu a lâmina encostada em seu pescoço, arrancando sangue onde tocava.
- Vai me matar, Lorde? – pela primeira vez em anos, o Desordeiro falava algo sem ironia, com medo no olhar.
Leafar engoliu seco. Seus olhos explodiam em raiva. Sua respiração estava pesada. Com o aperto da espada no pescoço de Jestr, fez com que ele se levantasse.
- Você....................... está preso – disse com os dentes cerrados, lutando para não perder o controle.
- ... preso?! Eu?! – segurando o ferimento onde antes havia sua mão, Jester ficou com os olhos arregalados.
- Em nome do Rei Tristan III, soberano de Rune-Midgard, você está preso pelo assalto realizado há alguns anos ao Tesouro Real de Prontera, pela morte de milhares de inocentes na invasão da Ruína de Rune-Midgard e pelos assassinatos de Jô Mungandr e Aislinn Cerridwen Belmont.
Uma lágrima finalmente escorreu de um dos olhos de Leafar, mas ele manteve a pose séria e dura. Sua voz não tremeu em nenhum momento.
- PRESO?! – repetiu Jestr, indignado – EU?! Está querendo insinuar que EU fui CAPTURADO?
- Você terá direito a um julgamento justo e a alguém que possa garantir seus direitos – continuou o Lorde, com a respiração profunda, o corpo pronto para explodir, como a sensação de uma grande onda no mar calmo, que inevitavelmente vai se quebrar.
- Ninguém jamais prenderá o Rei dos Ladrões! – o berro saiu com cuspe, típico de alguém ensandecido – Isso é loucura! Eu sou Jestr!
Talvez o Desordeiro, indignado pela situação em que se encontrava, não tenha percebido quão delicada era sua posição. Talvez não tenha considerado que estava sem a mão direita, embriagado por sua lenda e seu nome. O fato é que, com a mão esquerda, tentou puxar a espada da cintura. Mas, antes disso, Leafar brilhou. Em vermelho. Mais uma vez, acionara o Frenesi. Sua velocidade e sua força ultrapassaram qualquer limite humano. Os dedos de Jestr não chegaram a alcançar a empunhadura, pois já tinham sido decepados. A Muramasa voou, calada, como se dançasse, desenhando arcos e riscos no ar, cingidos de escarlate. O rosto de Leafar começou a ficar respingado de sangue. Sua mente não acompanhava mais nada. Ele apenas batia.
E batia. E batia. Não havia mais o que acertar, mas continuava batendo.
Quando sua respiração finalmente voltou ao normal, suas veias diminuíram e sua coloração se normalizou, a mente retomou o controle. Em sua frente, o que restava das pernas de Jestr estava caído, separado. Um sem fim de órgãos, carne, pele e sangue estavam em mais uma poça vermelha em sua frente. Andou alguns passos. Um princípio de insanidade tomou conta de seu corpo, enquanto seus olhos ficaram nublados de lágrimas. Começou a bater nos restos do Desordeiro. Golpes lentos e fracos, com o pouco que tinha de forças. Sentiu a mão feminina e delicada de Marion em seu pescoço. Virou-se e viu ela com os olhos vermelhos, com mais lágrimas esperando para cair.
- Calma... você matou ele. Calma, por favor, Leafar.
Finalmente a Muramasa caiu no chão, banhada de sangue. O Lorde passou reto por Marion, quase pisando em Jô Mungandr. Ajoelhou-se ao lado de Aislinn, caída de bruços. Virou-a de frente. Passou a mão em seu rosto e chamou-a. Uma vez, duas, três... insistiu, e seus chamados tornaram-se gritos. O nome dela ecoou por todo o Labirinto da Floresta, berrado pela voz mesclada ao gosto do choro do Lorde, até ir ficando cada vez mais fraco, morrendo de volta na boca dele, baixinho. Leafar virou o rosto para o lado. Caiu, espalmou as mãos no solo e, em uma golfada, vomitou sangue. Trêmulo, sem conseguir ficar de pé, sentindo a plenitude do peso de sua fiel armadura, se arrastou para o lado de Aislinn novamente. Pegou-a e deitou a cabeça dela em seu colo. Sem ter mais como lutar contra aquilo, se entregou ao choro. Parecia uma criança desamparada. Lembrou-se dos momentos com ela no Lago das Valquírias, como o que tiveram horas antes de começar essa missão. Seu coração se apertou com a lembrança do beijo que nunca foi dado, instantes antes de Jestr aparecer.

- Por que você fez isso, Ais... por quê?
Suas lágrimas tocaram o rosto agora frio e sem vida da Caçadora. Em silêncio, ficou ali abraçado a ela, como ninguém, fora Marion, agora, jamais tinha visto o Lorde. Não se importava com mais nada; quem era, o que tinha ou o que precisava fazer. A mulher que tinha amado estava morta.
Marion, por sua vez, sofria tanto com a morte de Aislinn quanto a de Jô Mungandr. Tentou puxar o corpo de Jô para perto do de Aislinn, mas não tinha forças para isso. Foi até Leafar, que balançava a cabeça negativamente, descrente.
- Me ajuda, Leafar, por favor. Temos que tirar elas daqui.
Ele não respondia, chorando. Marion insistiu mais duas vezes, e nada. Por fim, se ajoelhou ao lado dele e pegou em seu rosto, muito sujo em uma mescla de sangue, suor, vômito e lágrimas.
- Leafar – disse ela, tentando manter o controle, claramente emocionada, passando a capa dele em seu rosto, limpando-o – Nós temos uma missão. Se não fizermos nada, mais gente vai sofrer a perda de pessoas amadas como nós. PRECISAMOS continuar. Ainda falta um...
Foi impossível fazer outra coisa quando os olhos dos dois se encontraram. Em um impulso, se abraçaram. Como duas pessoas normais, os dois finalmente se entregaram e fizeram o que qualquer um com o mínimo de sentimento faria: choraram, sem se preocupar com mais nada.
*****
Deserto de Morroc
Alguns momentos antes
Sailor estava estupefata. Viu o rosto de Fei em sua frente, suado. Ele, que geralmente usava um disfarce de sacerdote, estava com sua roupa típica de espadachim, exibindo o longo rabo-de-cavalo azul.
- Fei! Espero que seja realmente urgente! Você não faz idéia de onde eu...
O Espadachim, marido da Mercenária, não disse nada. Apontou para trás dela. Sailor notou os corpos caídos de dezenas de companheiros de guilda – os Guerreiros Rúnicos. Ouviu o berro “Punho Supremo de Asura”, vindo de MettaKill, atingindo algo – ou tentando. Após a explosão de luz, causada por um choque, o Mestre foi arremessado aos pés da dupla.
Quando a luz cessou, Sailor encarou o poderoso Mestre-Ferreiro, com um martelo lindo, que beirava o divino, enchendo os olhos de qualquer pessoa, apoiado em seu ombro.
- Meu... DEUS! – Sailor deu um passo para trás.
- Esse – disse Hrymm – é o termo EXATO que me define.
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A vida é feita de escolhas. E a pessoa para quem eu escolhi dedicar originalmente esta história escolheu trair tudo que ela mesma sempre pregou. Não desejo mal a ela porque é para isso que existem os espelhos. E já deve ser difícil viver vendo o próprio reflexo sabendo que, no fundo, se é igual às pessoas que sempre julgou. E que seu caráter é igual ao seu tamanho físico: pequeno. Muito pequeno.
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